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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Cegos que guiam cegos

O texto de Renato Suttana e a pintura de Pieter Bruegel mostram (nas postagens abaixo), ambos, o quanto a cegueira é perigosa. Quem nos guia? Para onde nos guia? Sob que pretexto o faz? Por que o(s) seguimos?
Na pintura de Pieter Bruegel, por exemplo, vemos que o líder leva os seus seguidores para a sarjeta. O olhar de surpresa do já caído e o olhar de confiança do último da fila demonstram o despreparo e a fragilidade das certezas que construíram em torno de uma fé pretensamente – e de igual maneira – cega. Não gostaria, entretanto, que se pensasse que essa alegoria fosse uma alegoria da atualidade. Ao contrário, acredito que a cegueira cuja imagem representa foi abandonada nas trincheiras do passado. Creio, porém, que ela se torna um ponto de reflexão sobre tudo aquilo que construímos sem às vezes pensarmos com a mesma dedicação que agimos. As convicções filosóficas, políticas e ideológicas, contempladas como verdades são tão perigosas quanto a ignorância, ou ainda, são o reflexo distorcido desta. Esses pequenos castelos de areia não duram a breve garoa. Além disso, o esgotamento da satisfação intelectual em detrimento de uma satisfação documental é outra cegueira, a cegueira acadêmica de Renato Suttana, a cegueira curricular, da quantidade e da ignorância em seu sentido pleno. A fragilidade desses castelos, desses cegos, é talvez a fragilidade de nosso espírito, de nossas aspirações, de nossos desejos. É o esforço de por somente alguns raros momentos tirarmos nossas cabeças do atoleiro em que nos encontramos e vicejarmos algum futuro mais digno para nós.

E você, o que pensa? É mais um cego do castelo? Comente.
Até!

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Cegueira Acadêmica

Por Renato Suttana*

 

Qualquer um que tenha alguma experiência com pesquisa acadêmica deverá ter experimentado, pelo menos uma vez, a impressão de que produzir conhecimento – conforme a peculiar expressão utilizada pelas agências de fomento – não é exatamente produzir novidade e, muito menos, produzir alguma coisa que interessa aos ouvidos alheios. Não faz muito tempo tive oportunidade de apresentar, num congresso em Ouro Preto, uma comunicação cujo tema era a obra da escritora paulista Hilda Hilst para uma audiência de cinco estudantes de graduação que por acaso não conheciam nada de Hilda Hilst. Evidentemente a comunicação, que pressupunha, da parte dos ouvintes, um conhecimento prévio da obra da escritora, não pôde acontecer como tal. Percebendo que pouco adiantaria discorrer sobre determinado aspecto dessa obra diante de pessoas que sequer tinham ouvido falar dela, fui obrigado a mudar de estratégia. Abandonando o tema que me propusera a desenvolver, passei a fazer uma apresentação mais primária dos escritos da autora, discorrendo sobre os títulos e o conteúdo de seus livros em detrimento da crítica dos mesmos. De certo modo, se o objetivo dos congressos é, de fato, auxiliar na disseminação do conhecimento e criar oportunidades de compartilhá-lo, minha tarefa se cumpriu ali, pois algum serviço prestei às estudantes. Entretanto certo sentimento de frustração não pôde ser evitado, já que, para fazer o papel de propagandista da autora ou para falar de assuntos que poderiam ser facilmente encontrados em orelhas de livros ou na Internet, eu não precisaria ter ido a Ouro Preto.

 

A própria expressão que se usa hoje em dia para designar o tipo de trabalho que se pode realizar no campo da pesquisa em ambientes acadêmicos – produção de conhecimentos (ou, piormente, produção intelectual) – já denuncia o estado de coisas a que quero aludir. Uma vez que o saber se torna cada vez mais passível de quantificação e uma vez que o número tende a dominar todos os setores da vida profissional (quantidade de dias trabalhados, quantidade de escritos publicados, quantidade de eventos freqüentados), não há senão que esperar a frustração. Tendo a contabilidade invadido todos os recessos da vida mental, e esforçando-se cada indivíduo para modelar sua carreira e conduzir suas ações segundo os parâmetros da numerologia dos currículos, seria difícil esperar que do automatismo – e das esperanças que se depositam nele – surgisse algo menos que uma monstruosidade. Seqüestrados, subjugados, submetidos por todos os lados pela lógica da quantidade, saímos a campo para conquistar um espaço, e aquilo que conquistamos não vem a ser um retrato do que somos realmente, mas uma prova de que, de alguma maneira, descobrimos um modo de lidar com a situação e principalmente de fazê-la trabalhar a nosso favor. E, se no âmbito das compensações imediatas (sejam elas de caráter moral ou material) nos sentimos pagos e realizados, isso nada tem a ver com a idéia de que os nossos atos se tornaram projeções reais de um modo de ser que, fomentado pela academia, teria atingido uma consistência qualquer no fluxo do tempo e das coisas. Pelo contrário: é apenas prova de que ainda estamos longe da verdade e que há muito por fazer, só não havendo – desde que foi aberto o dique da numerologia – limites para a insatisfação.

 

Uma das conseqüências da invasão da academia pelos números é – conforme o episódio do congresso me ensinou – o que se poderia chamar de uma perda do senso de proporções e da capacidade de avaliação fidedigna das coisas. Numa época em que a produção de mercadorias tende a crescer vertiginosamente e em que não há nada a que não se possa aplicar um preço, a universidade e tudo o que se liga a ela não pode ficar inerte. Aos poucos, aqueles que participam dela imediatamente – professores, alunos, funcionários – assistem à sua própria transformação em peças de uma burocracia que os leva para todos os lados sem que possam, como indivíduos, impor qualquer direção ao seu destino. E é isso que devemos considerar como sendo o coroamento de séculos de esforços e de efetivaprodução de saber, isto é, uma grande máquina bem azeitada que funciona à revelia de todos e em cujo funcionamento depositamos nossa confiança, na expectativa de que por si só nos levará a bom porto.

 

Por certo, nunca se pensou tanto, se ensinou tanto e se escreveu (e publicou) tanto como na época atual, mas esse pensar, esse ensinar e esse escrever parecem ter gerado também um volume considerável de produções excrescentes. Tal como manchas de musgo na superfície de um muro denunciam a presença de umidade, seria interessante perguntar também se as excrescências indicam alguma coisa ou se são apenas um subproduto indesejável. Seria justo pensar que no estágio atual da produção do saber um acentuado processo de fragmentação e de conversão do conhecimento em mercadoria vendável se encontra em andamento, e num sentido muito mais profundo do que aquele que há em dizer que a universidade apenas espelha (e reproduz) em seu interior o processo mais amplo da vida no mundo. Se os professores (e demais participantes do teatro acadêmico) estão aprendendo a cada dia a se tornar competidores e se estão descobrindo que é preciso, sobretudo, de qualquer maneira, “derrubar a concorrência”, uma das causas está no modo como a vida universitária se configura atualmente. E, se não basta apenas dizer que somos levados de roldão, isso também não nos isenta da responsabilidade – mas é exatamente a capacidade de arbítrio do indivíduo que tem sido, pouco a pouco, solapada pelas estruturas do anonimato e do número.

 

Aquilo que as produções excrescentes significam não poderia ser descrito apenas como sendo o sentido mesmo de existir da academia, desde que as admitimos como excrescências e não como o objetivo principal da produção. Mas, se não podemos dizer que elas não têm um sentido, precisamos concordar que assim mesmo elas apontam para o processo mais amplo de que são apenas o sintoma, participando dele de uma maneira mais profunda do que tendemos a crer. Concorrem, por assim dizer, com (qualquer que seja ele) o objetivo final do processo ou caminham ao seu lado. E então não seria incorreto dizer que, mesmo excrescentes, elas têm afinal alguma utilidade. Muita gente hesitaria em concordar que determinadas pesquisas atuais, incluindo-se teses e trabalhos que são publicados cotidianamente, possam ter qualquer serventia. Quem nunca encontrou numa revista algum artigo sobre, digamos, o emprego da palavra pedra na poesia de Carlos Drummond de Andrade, ou do termo travessia e equivalentes na obra de João Guimarães Rosa, ou sobre o tema da intertextualidade e seus correlatos nos escritos de fulano? Alguém poderia se lançar de ânimo puro à pesquisa do sentido da palavra seda na poesia de João Cabral de Melo Neto, sem se dar conta de que o mesmo estudo que se escreve sobre tal palavra poderia ser escrito também sobre as palavras lâminasol e mar nessa poesia, condenando-se assim, desde o início, a não chegar a lugar nenhum. Evidentemente não estou a negar que, estudando esses temas, se possa obter, apesar de tudo, alguma relevância. Mas essa relevância dependerá muito mais do talento individual de quem se arrisque ao empreendimento do que das condições que por acaso o propiciem, sejam elas quais forem. A academia – que leva fulano ou sicrano a tomar esta ou aquela iniciativa e a se comportar desta ou daquela maneira diante de sua própria pretensão ao conhecimento – se encarrega ela mesma de abençoar ou de descartar o que não faz sentido ou foi produzido apenas para fins protocolares, e os periódicos estão aí para comprová-lo. A construção da carreira, porém, muito mais sólida do que as bases em que se fundamenta, não se comporta do mesmo modo, sendo preciso, em geral, um golpe de vista muito mais apurado para se perceber esse fato – e mesmo assim com o risco de que só muito tardiamente venhamos a percebê-lo.

 

É claro que, se as coisas ficassem nisso, não teríamos tanto do que nos queixar, pois, depois de produzido o perfunctório, o tempo pode muito bem se encarregar de fazer a triagem. As complicações começam quando do terra-a-terra das ilusões acadêmicas básicas – a idéia de que a construção do currículo pessoal patenteia um real mérito do indivíduo e não a sua simples ambição de ostentar um mérito que futuramente poderia converter-se em vantagens de carreira – se passa para o jogo mais agressivo da competição profissional, a ocorrer no ambiente imediato de trabalho. Neste ponto, a cegueira acadêmica atinge o seu extremo, impossibilitando-nos de enxergar o momento em que os vários planos – ambição profissional, mérito intelectual, relevância da atuação acadêmica – se confundiram. Chamo de cegueira o fato de que a academia, a viver de uma atividade mental incessante, se torne muitas vezes no ambiente menos propício ao exercício de qualquer atividade intelectual que mereça esse nome, ou que se configure como o ambiente onde a última coisa que se deve fazer é pensar. Schopenhauer escreveu sobre isso com memorável azedume. Ao assinalar que, no campo da filosofia, os pensadores verdadeiros “têm pelo menos uma opinião decisiva [...] sobre cada problema da vida e do mundo, e assim não precisam indenizar ninguém com frases vazias”, afirmou que os filósofos de cátedra, “que sempre são vistos comparando e ponderando opiniões alheias, em vez de se ocupar com as próprias coisas”, agem como se falassem “de países longínquos, a respeito dos quais se teria de comparar criticamente os relatos dos poucos viajantes que lá estiveram, mas não do mundo efetivo estendido e posto claramente diante deles”. Poderia ser argüido que o depoimento de Schopenhauer não tem validade neste ponto, pois é perpassado de um ressentimento pessoal que compromete a objetividade de sua avaliação. Mas como negar que, qualquer que seja a área, em sua ambição de produzir a inteligência, a academia se tenha tornado também num ambiente propício à gestação da vaidade, do sentimento de competição e, sobretudo, numa incansável máquina de alentar o mau-caratismo (este último por sua vez muito pouco disposto a ser corrigido pela simples listagem de títulos ou pela exposição na Internet de longos currículos que impressionam muito mais pelo fato de serem longos do que pelo que quer que tenham a dizer sobre os méritos efetivos de quem se acha neles retratado)?

 

Não há negar que as exceções são muitas. E não queremos fazer julgamentos de ordem moral, pelo menos antes de termos analisado os fatos. Se pudermos nos contentar com a idéia de que a cegueira acadêmica, conduzindo à perda do senso de proporção, ajuda a acentuar também o sentimento de impotência individual, devemos crer que um de seus efeitos é o surgimento de nichos, de verdadeiras rachaduras no tecido burocrático onde cada um se ajeita como pode. É no espaço da mais extrema racionalidade que os procedimentos de acomodação mais parecem pulular. Também não se trata de dizer que tudo seja acomodação. Entretanto quando, digamos, um professor se vale de seu título para impor certo tipo de autoridade a seus alunos (diferente, pois, da autoridade que deveria emanar naturalmente da relação que se estabelece entre educador e educando em sala de aula) ou para “aterrorizar” os seus pares ou os próprios agentes da rotina escolar a partir do suposto prestígio que lhe concede a detenção do saber, fechando as portas ao diálogo, ou quando se convence de que o título o torna imune a qualquer crítica ao seu trabalho, não podemos pensar de outra forma.

 

Recentemente me dei ao (enorme) trabalho de participar de um concurso para professor adjunto na área de literatura promovido por uma universidade pública brasileira. Dentre os dezenove pontos da ementa, tive de ocupar-me, durante quase dois meses, de estudos que incluíam, entre outros não menos exaustivos, os seguintes assuntos (cada um deles vasto o suficiente para em si mesmo justificar todo um procedimento de concurso): gêneros literários: linhas de continuidade e ruptura; mimesis e verossimilhança na narrativa literária moderna; formalismo russo: a noção de estranhamento; New Criticism: os princípios de interpretação do poema; estruturalismo: a imanência do texto literário; prosa e poesia no romance de José de Alencar; a questão da onisciência no romance de Eça de Queirós; a ambigüidade do narrador no romance de Machado de Assis; a poesia do cotidiano de Manuel Bandeira; a heteronímia poética de Fernando Pessoa; lirismo, ironia e reflexão na poesia de Carlos Drummond de Andrade; forma e lirismo em João Cabral de Melo Neto; universalidade e regionalismo no romance de Graciliano Ramos; a moderna narrativa psicológica de Clarice Lispector; epos e romance em Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa. Seria, pois, de perguntar se a uma banca avaliadora composta apenas de três membros – conforme observei durante as provas – era possível tamanho domínio de saber ou, pelo menos, um domínio satisfatório de todos esses setores dos estudos literários, considerando-se que as provas seriam aplicadas a candidatos que, supostamente, poderiam ter o mesmo grau (ou pouco menos) de formação acadêmica que os avaliadores. Não se trata de julgar a capacidade ou incapacidade dos avaliadores para esse empreendimento, mas não posso deixar de me perguntar se não estaria em curso ali também um evidente processo de acomodação às circunstâncias, no qual, sendo impossível sequer reconhecer o tipo (e o grau) de conhecimento que se queria avaliar, o carro teria de continuar em movimento assim mesmo, com todos os obstáculos do percurso, porque no final sempre se chega a algum lugar? Mas não é exatamente aí que o edifício da racionalidade desmorona, convertendo-se em solo fértil para o afloramento das injustiças, do nivelamento por baixo e das adequações nem sempre claras às circunstâncias?

 

É de supor que, em situações como essas (do concurso e outras), dificilmente se poderia avaliar com precisão um mérito efetivo, qualquer que fosse ele. E, no entanto, não há nada mais justo do que a própria idéia do concurso público, regida ela mesma por rigorosas legislações e metodologias, as quais – num lance de prestidigitação característico da legalidade contemporânea – estão sempre abertas ao conhecimento de todos. Acontece que, quando a legalidade se converte em retórica, tanto pode se tornar vítima (ou refém) de si mesma quanto naufragar num verbalismo sem objeto, com as acomodações a bater à porta solicitando entrada. Num complexo de situações em que as questões éticas não podem ser debatidas, porque simplesmente não existem bases para que o sejam, a primeira solução é recorrer aos regulamentos e às normas, mas os regulamentos e as normas já fracassaram há muito tempo. Onde então a possibilidade do diálogo fundado em premissas que sejam realmente do conhecimento das partes? Não há dúvida de que a academia tem aspirado a isso, mas, uma vez entravada, uma vez enleada em mil obstáculos que brotam da própria tentativa de solucioná-los, só pode assistir à materialização de seus piores pesadelos – ela que, como ninguém mais, deveria estar aparelhada para prevê-los ou para nos ensinar a contorná-los.

 

Nos dias de hoje, os esforços de acomodação parecem ter invadido todos os recessos da vida acadêmica. Passando pelo estudante que plagia um texto da Internet e o encaminha ao professor como se se tratasse de produção original, pelas más condições de trabalho oferecidas aos professores (geralmente chamados “substitutos” ou “colaboradores”) que trabalham em instituições públicas sem pertencerem ao quadro efetivo de docentes, pelas regras oficiais de formatação de trabalhos em publicações que mudam constantemente porque isso estimula a venda de manuais, pelo pós-graduando que simplesmente “encomenda” uma tese a um profissional “especializado” em tais serviços, o que se vê é uma busca generalizada de sobrevivência a qualquer custo, e não tanto porque se optou pela lei do menor esforço, mas porque o estado de coisas é propício a tais soluções. Mesmo no âmbito da legislação é possível detectar o momento em que a solução se reverte em problema, como no caso dos Parâmetros Curriculares Nacionais, redigidos num belo espírito de orientação humanista e emancipatória, mas sem que se levem em conta as reais condições de produção sobre as quais o ensino assenta na sociedade atual, a proibir qualquer tentativa de emancipação do indivíduo. Pode-se legislar no vazio ou fazer com que a grande máquina que é o ensino, profundamente comprometida com a crua realidade do mundo moderno, funcione a contra-corrente, levando à emancipação sem se emancipar ela mesma frente ao que a determina? Ignorar esses fatos é ignorar essa realidade. E então se corre o risco – conforme vem acontecendo nos últimos anos com o sistema de educação brasileira – de mergulhar mais fundo na enchente, sem qualquer perspectiva de emergir dela ou de estancá-la a curto prazo.

 

A sensação de que produzir conhecimento não se dirige hoje a ninguém pode ser apenas um efeito, e qualquer um sabe que não basta combater o sintoma para se atingir a raiz da doença. Ora, o termo produzir, no caso, deveria indicar, pelo menos, alguma forma de integração a qualquer coisa de mais amplo, configurada no sistema de ensino atual, implicando também a consciência que temos dessa integração. Mas às vezes nem isso acontece, como o demonstrou minha experiência do congresso em Ouro Preto (e outras experiências do mesmo teor) – uma gota de água, reconheço, num vasto oceano. É possível falar em reforma universitária, conforme a pauta contemporânea, sem se colocar em questão a idéia mesma de sistema de ensino ou sistema de produção de saber que fundamenta, de um modo ou de outro, e portanto dirige tal reforma? A pergunta, com o que tem de urgente e imperiosa, deveria, senão trazer pesadelos, ao menos tirar o sono daqueles que se preocupam com o assunto.

 

 

Publicado originalmente em Comunicações - Revista do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba, v. 12, n. 1, jun. 2005. p.114-119.

 

Reproduzido do site do autor: http://www.arquivors.com/cegueiraacademica.htm

 

Boa leitura. Até!

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O jornalista Luiz Weis comenta a eleição americana

Duas visões da vitória de Obama

Por Luiz Weis em 10/11/2008

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br

 

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

A América, escreveu na semana passada o historiador e jornalista holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade. Mas, de repente, é como se o pior se tivesse evaporado.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1976), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), ainda que tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que conquistaram ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e mais candidatos progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama, mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando os americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

 

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Agora cabe a pergunta: O que há de tão importante na eleição norte-americana para nós brasileiros?

Uma pergunta que reside na ampla cobertura das eleições (incluindo as prévias) norte-americanas, na grande repercussão da eleição de Obama e sua representação quase heróica.

O artigo de Luiz Weis prima pela sua observação crítica das eleição. Ele revela através dos dados eleitorais os meandros não-comentados pela imprensa.  Mas a pergunta continua...

E você o que acha?

Até!

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terça-feira, 1 de abril de 2008

Tudo se junta no Salão Dourado

Por Marcos Góis (Ruler)

Às vezes em uma caminhada ordinária entre a sua casa e a padaria próxima pode se revelar uma infinidade de camadas de vidas a serem percebidas por aqueles que se sentirem sensibilizados pela simples relação entre as coisas. Tentarei mostrar um pouco desse sentimento com o mundo dos seres e objetos a partir de uma experiência recente, na qual colei grau na Faculdade de Educação.

Desde o ponto de ônibus e o ambiente público que gera de imediato um conflito entre a dimensão privada da minha vida, onde vivo cercado pelos objetos e pessoas que guardam maior intimidade e conhecimento comigo, até a necessidade de sobrevivência em lugares desconhecidos e a convivência com pessoas estranhas a mim. As diferenças começam daí, nas roupas que visto para sair de casa, nos gestos e atos diferentes e nos caminhos já traçados que geram maior conforto e segurança para mim. A escolha do melhor percurso para da minha casa até o ponto de ônibus e deste até chegar ao meu destino final são táticas de viver a civilização, pelo menos de certo modo.

Em uma cidade como o Rio de Janeiro o percurso é marcado pelas estruturas viárias principais que marcam a paisagem por suas formas exuberantes. Uma viagem que tenha como percurso a Av. Brasil, por exemplo, é marcada por contornos de fábricas deterioradas e habitações como favelas e conjuntos habitacionais, pelo menos de Deodoro até o Caju. Pela janela, como faziam os antigos estudiosos das paisagens, pode se ver um mundo de seres e objetos em movimento como em um filme. Ás vezes tem-se a impressão de que tais coisas parecem conviver de forma orgânica, como em um sistema que pulsa. Às vezes é o caos que opera sobre nossos sentidos e um sentimento de rejeição provoca o fechar das cortinas das janelas.

Ao chegar à Rodoviária Novo Rio, porto de entrada de milhares de pessoas na cidade do Rio de Janeiro e primeiro cenário a ser vislumbrado por seus visitantes quando chegam à cidade, assombram a paisagem barracas azuis, trabalhadores, viadutos, veículos, moradores de rua etc. em um quadro rico em cores e texturas. A caminhada apressada deixa passar um canal poluído, um pedido de esmola ou uma batida entre carros. Tudo é tão veloz. Os ônibus amarelos que levam através do Rio antigo – Gamboa, Saúde, Pça. Mauá, Primeiro de Março –, passando pelo parkway do Aterro do Flamengo e a paisagem exuberante da Baía de Guanabara iluminada pelo sol. Até chegar finalmente no ponto do Rio Sul, marcante forma que entre as montanhas se ergue como símbolo da vocação comercial da cidade e do capital de vulto que consome espaço e postos de trabalho durante doze horas todos os dias da semana.

A caminhada termina nos prédios de outros tempos erguidos próximos a Praia Vermelha na Zona Sul da cidade. Dentro do prédio da Faculdade de Educação dirijo-me até o Salão Dourado (creio ser este o nome) onde se vê um amplo salão decorado com lustres belíssimos e a estátua de D. Pedro II. Tudo isto, a primeira vista evoca os tempos do Império no Rio de Janeiro. Símbolos que 200 anos após a chegada da Corte de Portugal são relembrados e novamente evocados pela sociedade brasileira. Mas, antes de qualquer coisa, símbolos que os cariocas gostam de reforçar como forma de diferenciar-se do resto do país.

Salão Dourado - UFRJ. Fonte: www.imagem.ufrj.br

A primeira formalidade do cerimonial é a execução do hino nacional brasileiro, uma marca formal da República Velha presente pela tradição até os dias de hoje. Ao mesmo tempo, levantando-me da cadeira ordinária que pode ser comprada em qualquer loja de material para escritório; vejo que estou presenciando vários tempos, várias sociedades, vários signos, várias normas. Tudo assomado em um mesmo lugar, como se tudo se encontrasse no Salão Dourado: o Império, a República Velha, a arquitetura neoclássica, as cadeiras modernas, o hino reproduzido em Compact Disc, o vestuário enriquecido de várias influências e tanto mais quanto pude perceber em uma hora. E ainda tinha a volta para casa com um juramento e uma certidão em mãos...

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